Histórias à Beira Rio, viagens e andanças pelas aldeias da minha terra

Tocar, pôr a mão na roupa...

De lugar em lugar, também andam pelos caminhos das aldeias da minha terra, vendedores ambulantes, Em Alferrarede Velha, as bancas estão a abarrotar de roupa. São vestidos, calças, saias, blusas, meias, cuecas, soutiens. Até chegarmos às toalhas de mesa com variados desenhos estampados no tecido. A clientela, mexe e remexe na roupa, procurando algo que satisfaça a elegância de cada pessoa. A estratégia de escolher a roupa é semelhante à dos leitores que vêm a biblioteca ambulante. Tocar, pôr a mão na roupa, agitar as páginas, verificar, preferir, alterar a ordem quando não se coloca no lugar onde estavam. Ocorre dinamismo na seleção da leitura, na roupa que se quer usar, fica-se plenamente satisfeito. Na esplanada do café, um grupo de homens, sentados ao redor de uma mesa conversam entre si. Interrompendo o ruído das vozes no gesto súbito de levar o gargalo da garrafa de cerveja à boca. O Campo tem outro aspeto, está amarelo, no qual as árvores vulneráveis podem a qualquer momento sofrer o efeito de algum acontecimento extremo. No Vale Zebrinho, aldeias de poucos habitantes, sobressai um grande plátano, é o lugar da biblioteca ambulante sempre que visita a aldeia, protegendo-se na sua sombra nas tardes de verão. Ouvindo os sussurros do vento entrando pelas portas dos fundos, depois de largar as palavras soltas, as que não devem ser do conhecimento de outrem, sai rapidamente pela porta lateral. Na direção das pequenas aberturas, nas paredes das casas velhas, nas janelas, por baixo das portas. Vai aligeirar o ambiente sufocante, dar a boa nova, o plátanp grande tem histórias na sua sombra. O João saiu agora mesmo, entrou carregado de queixumes acerca da sua saúde e da velhice, não o conheci de outra maneira. Senta-se, continuando nesta lamentação interminável, enquanto o viajante das viagens e andanças lhe apresenta histórias que nunca leu. Sai levando no saco as palavras que o apoiarão nos próximos dias, e jornais para consumir imediatamente. O dia termina na aldeia das Arreciadas com mais um leitor que se satisfez, desabafando as suas mágoas, mas com capacidade para sonhar.

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