


Noutra árvore, noutra sombra, a biblioteca ambulante hoje de manhã com crianças a rodearem as histórias, ouvindo a Carla a ler O que vês quando olhas para uma árvore? Vejo o plátano grande como nunca vi outra árvore, um amigo. Sempre que a biblioteca ambulante regressa à aldeia do Vale Zebrinho, no verão, é a sua sombra que protege o viajante das viagens e andanças, as histórias da impiedade do sol. Consigo tocar nas suas folhas, faço-o quando folheio as páginas da história. Vejo esperança, vejo desejos, vejo aquénios, os frutos do plátano que contêm uma única semente. Palavras, germinando outras palavras, lendo a história desta árvore ao longo do tempo. Foi o tempo que me fez amigo do plátano, no outono as suas folhas assemelham-se a brincos dourados adornando á árvore, no inverno a árvore despe-se sem pudor. Mostrando os ramos deformados, as divisões que o tempo trouxe, na primavera cobre-se com o mais belo vestido que se pode imaginar. Vaidosa, sempre que o vento remexe nos seus ramos, agitando-a em consequência dos toques leves e repetidos provocando risos convulsivos. A árvore está feliz com as histórias ao pé de si, com as letras subindo umas atrás das outras pelo tronco da árvore, imitando as formigas a levar comida. Fundamental para a árvore, pois fornecem muitas narrativas diferentes, suficientes ao crescimento . As formigas arejam o solo ao redor da árvore permitindo aos acontecimentos desenvolvidos nas histórias chegarem às raízes da árvore. As formigas e a biblioteca ambulante realizam um trabalho silencioso, ninguém vê, a árvore a crescer.