Histórias à Beira Rio, viagens e andanças pelas aldeias da minha terra

A água saindo da bica...

As nuvens por um triz não cobrem a totalidade do céu azul, não fossem as escassas clareiras permitir ainda a penetração dos raios solares sobre as aldeias da minha terra. De manhã a chuva fez uma aparição fugaz, nestes dias é um milagre, aos que alcançaram, ou receberam a água. Tínhamos esquecido a impressão da roupa molhada no corpo, a sensibilidade ao odor da terra molhada a intrometer-se nas narinas como a flexão do corpo da serpente a deslocar-se. A biblioteca ambulante é um corredor para o vento entrar e sair, um climatizador natural a refrescar as histórias. Retirando-lhes as poeiras que o tempo sobrecarregou sobre as palavras, privando-as de respirarem em liberdade. Nas mãos dos leitores, das pessoas anónimas que chegam com ímpeto e saem, afastando-se o mais depressa possível. Voltou a chover, a precipitação foi semelhante ao vento, aos que não se querem dar a conhecer, deixando outra vez um rasto no ar. Um rapaz montado numa trotinete moderna entrou no lugar onde a biblioteca ambulante se demora, a sua presença foi de curta duração. Hoje andam todos impacientes, sem tempo para experimentar a influência das palavras. Deixarem-se transportar na corrente destas, como a água saindo da bica na fonte. Ou no aparo da caneta, em fio,  escorrendo a tinta, unindo as letras a formar histórias.

0