
A manhã está coberta por nuvens escuras, excetuando num pedaço rasgado no horizonte, onde o sol tenta esgueirar-se como um intruso. Na pequena aldeia, depois do roubo da escuridão pelo intrometido, o céu mostrava-se azul, no entanto algumas nuvens deixavam-se ver apressadas, deslocando-se por cima dos plátanos de aspeto delgado, à entrada da povoação. No café estava o Júlio, o primeiro e único freguês até agora no estabelecimento. Sentado diante de uma mesa, de olhar cabisbaixo a pensar no dia que se levantava em direção ao início da tarde. Tinha andando pelas redondezas a tentar espiar os javalis que não desistiam de destruir as hortas durante a noite. A mulher ficou na cama, ainda o tentou demover da saída prematura debaixo dos lençóis, mas não teve sorte de o manter ao pé de si. Saiu disparado que nem uma flecha, vestiu-se com a roupa do dia anterior, deixada ao acaso na cadeira à saída do quarto. Sem lavar a cara, ou beber o café, foi a cogitar para a rua sobre o que iria encontrar no seu pedaço de terra que tanto lhe custa a converter em hortaliças e legumes. Não tem capacidade de suportar contrariedades como anteriormente, quando o corpo não se queixava do esforço de abrir e revolver a terra com a enxada. Os animais selvagens perderam a vergonha, e não o deixam descansado neste jogo das escondidas. A aldeia perdeu leitores, no passado houve quem aparecesse a contemplar as histórias na biblioteca ambulante. Nas últimas viagens e andanças já não é assim, ficam alguns exemplares do jornal local da região das aldeias da minha terra no café. O lugar público, que é só um na aldeia, onde todos conhecem todos. O jornal a cair na mesa tirou o Júlio do sentimento de desânimo em que se encontrava, ficou logo embeiçado pelas palavras que traziam novidades. Um sorriso manifestou-se, abriu a boca e pediu um café, passava o dedo pelos lábios, molhando-o para puxar as folhas do jornal para trás. À medida que consumia as palavras com alguma cobiça, pôs-se a falar alto para os fregueses que entraram a seguir, calando-se quando dava goles curtos e rápidos na chávena do café. Lia alto e comentava as notícias do jornal, as mesmas que outros tinham lido mais cedo noutros lugares e na cidade. A biblioteca ambulante só hoje chegou à aldeia, transformando a ausência em presença de notícias exteriores a este lugar.