Histórias à Beira Rio, viagens e andanças pelas aldeias da minha terra

Depósitos de sabores e saberes ...

As nuvens estendem-se ao longo do horizonte, uma manta desenrolando-se pelas aldeias da minha terra. Não me recordo da última vez que a manta agasalhou o território. Após tanto mês de estio, as pessoas das aldeias não se queixam daqueles dias amarradas na temperatura elevada do ar. Rostos desanuviados do abatimento pelas horas no interior do forno assando lentamente. Agora com a porta aberta deixou de haver armazenamento de calor. No campo os panos verdes aos pés das oliveiras, pedindo permissão às rainhas das árvores para deixarem colher os pequenos frutos quase amadurecidos. Esmagar, e deixar correr o trabalho dos homens e das mulheres. O óleo convertendo-se em palavras sobre folhas de papel, sem nódoas aceitam o conhecimento. São depósitos de sabores e saberes que sentimos no paladar de cada história lida. As nuvens continuam a passar sem ameaçarem com precipitação a biblioteca ambulante. Os homens nas escadas não desistiram de bater vigorosamente com as varas nos porta joias das oliveiras. As mulheres no chão, agachadas com os joelhos dobrados e as nádegas sobre os calcanhares, apanham os objetos preciosos. O sol prossegue a sua fuga, não tardará lança-se no desconhecido, sem deixar de beijar a última nuvem que consigo avistar.

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